Feeds:
Posts
Comentários

Archive for dezembro \02\America/Sao_Paulo 2013

Para fazermos uma análise crítica dos resultados das análises de dados de forma geral, precisamos compreender o perfil do analista, o processo e o produto de inteligência. Enquanto o analista experiente precisa se concentrar e manter a razão para não ser dominado por sua intuição inicial e seguir somente em uma direção, como se fosse uma investigação o inexperiente precisa mapear todas as possibilidades para não se perder na coleta de dados. Como associar corretamente a ameaça detectada e sua amplitude? Certa feita me foi dito, que qualquer analista treinado pode produzir um informe sobre qualquer assunto, contudo, sabemos que o “alvo” deve determinar o grau requerido de formação do analista, principalmente se o processo de análise for holístico, para atender aos requerimentos do cliente. Habilidade cognitiva, análise objetiva e implicação de escolhas são condições inerentes tanto às capacidades do analista de inteligência, como do tomador de decisão. Enquanto ao analista de inteligência cabe atender aos requerimentos do pedido do tomador de decisão, este último, precisa encontrar subsídios suficientes na síntese elaborada pelo analista para poder ser assertivo em sua decisão. Ressaltamos que a síntese de todo o produto de inteligência deve ser portadora de futuro, da direção do cenário mais provável. Múltiplos cenários são sempre considerados, contudo o que o tomador de decisão precisa é conseguir convicção de um possível resultado. Os desafios para o analista podem ser enormes dependendo da importância dos resultados para o concorrente. Pela complexidade do setor e do ambiente de negócios, pode ser necessário vários analistas com especialidades de conhecimentos diferentes e de até, métodos diversos de pesquisa e análise, para que em um dado momento um analista coordenador concilie e integre estas informações. O processo final do produto de inteligência é o portador de maior risco para a qualidade da síntese da análise, pois é neste ponto que a percepção do analista toma forma, e deve ser defensável. Em uma grande organização, pública ou privada, onde muitas informações relevantes são oriundas de diversas fontes, muitas delas podendo ser perdidas, desconhecidas ou descartadas (filtros errados), seria quase um milagre garantir a qualidade do resultado final. Tomemos o exemplo, que mesmo depois de doze anos do ocorrido, tem-se mantido a versão que “*o problema fundamental com o 11/9 foi a incapacidade de conectar os bancos de dados, a fim de ligar os pontos e evitar a catástrofe”. Contudo, impressiona o fato que até a dinâmica do ataque foi previsto, como demonstrado pela **capa do manual “Emergency Response to Terrorism” de agosto de 1997, produzido pela FEMA (Federal Emergency Management Agency), e mesmo assim não identificaram a tempo que estrangeiros com perfil de risco estavam fazendo escola de pilotagem de aviões comerciais dentro do território americano. Todos os elementos estavam presentes, mas não houve capacidade técnica, operacional e política, das agências responsáveis compartilharem seus alertas internos para uma análise convergente das possíveis implicações de riscos. Segundo Berkowitz e Goodman***, “É através da análise, síntese, e interpretação da informação, de preferência em combinações de várias fontes de colaboração, e em resposta às exigências dos clientes, que os analistas criam inteligência. Ao fazê-lo, o analista tem duas tarefas: Montar corretamente as peças do quebra-cabeça e, uma vez que todas as peças do quebra-cabeça nunca estão lá, acertar o que a imagem é. De todos os problemas de pessoal que a comunidade de inteligência terá de enfrentar nos próximos anos, o mais difícil de resolver é susceptível de ser manter a base do talento que a comunidade necessita para cumprir a sua missão… Grande parte do trabalho da comunidade de inteligência é altamente especializada e exige criatividade excepcional…. É também seguro dizer que alguns dos analistas mais prementes e as habilidades que a comunidade exigirá são precisamente aqueles que nem sequer podemos prever neste time.” Sob todos estes aspectos, o produto gerado pelo analista de inteligência profissional é parte integral do processo de decisão, e não pode ser considerado simplesmente como mais uma fonte de referência pelo tomador de decisão. Somente na maturidade do planejamento estratégico corporativo, onde a inteligência estratégica tem seu papel assegurado, podemos encontrar o perfeito equilíbrio entre o peso do produto de inteligência e a tomada de decisão consciente para evitar uma crise. Se os trabalhos de coleta e análise sistemáticos garantirem a qualidade do produto de inteligência durante a estabilidade do negócio, quando um fator externo incontrolável se apresentar e um prenúncio de crise surgir, se a crise se instalar o tomador de decisão se fortalecerá na confiança das análises. Toda inteligência é informação, mas nem toda informação é inteligência.

*Versão Oficial do Governo Americano.

**Reprodução da capa do manual “Emergency Response to Terrorism” de agosto de 1997, produzido pela FEMA (Federal Emergency Management Agency)

***Bruce D. Berkowitz é autor e consultor senior da RAND e Allan E. Goodman foi professor de Ralações Internacionais na Georgetown University’s School of Foreign Service e atualmente é presidente executivo do Institute of International Education.

Este artigo foi baseado em “Intelligence Analysis: Does NSA Have What It Takes?” do boletim Cryptologic Quarterly produzido pela NSA- National Security Agency, que apesar de “desclassificado”, censura a data e o autor.

 1997Femacover

                       

Read Full Post »

O Instituto Royal, localizado em São Roque, interior de São Paulo, encerrou suas atividades depois de ter suas instalações invadidas por ativistas e ocupar as manchetes das grandes mídias do país. Desde 2005 o Instituto realizava pesquisas com testes pré-clínicos para o desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de doenças como câncer, diabetes, hipertensão, epilepsia, entre outros, com a utilização de cães, coelhos e ratos. Segundo os ativistas, a invasão que ocorreu após vários dias de vigília, foi motivada por denúncias de maus tratos aos animais. O Instituto era credenciado pelo Concea (Conselho Nacional de Controle e Experimentação Animal), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia responsável por regulamentar o uso de animais em pesquisas no país, e o único capacitado e regulamentado para atender empresas interessadas na realização de testes para registro de medicamento. Em comunicado à imprensa, o Instituto relaciona o encerramento das atividades às “elevadas e irreparáveis perdas” que sofreu com a ação dos ativistas, o que significou “a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas”, além de colocar “em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores”. Consta que foram subtraídos 178 cães da raça Beagle e 7 coelhos, muitos deles estão hoje sob a custódia de ONG’s, enquanto outros, nas mãos de particulares. Ressaltam-se ainda os fatos: o Ministério Público investiga o Instituto por maus tratos aos animais desde 2012; o deputado Ricardo Izar (PSD-SP), que preside a Frente Parlamentar em Defesa dos Animais, ter pedido à Procuradoria-Geral da República que investigue se há irregularidades no funcionamento do Instituto Royal; registros de repasses de R$ 5,2 milhões para o Instituto Royal em junho de 2012, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) um ano antes de o instituto receber o registro do Concea; e finalmente, segundo dados da prefeitura local possuía apenas licença de funcionamento como canil. Sem entrarmos em maiores detalhes, gostaríamos de associar alguns eventos semelhantes, para podermos concluir nossas apreciações. Em 2009, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) invadiram uma fazenda em Borebi (SP), propriedade da fábrica de sucos de laranja Cutrale, que na ocasião teve mais de 7 mil pés de laranja derrubados, além da destruição de 28 tratores, sabotagem do sistema de irrigação e a depredação da sede da fazenda. Esta área foi invadida novamente em 2011, 2012 e duas vezes em 2013, ou seja, cinco vezes. Na última vez, o MST também invadiu uma área próxima dedicada a um projeto de reflorestamento. Na região de Ribeirão Preto (SP), várias fazendas de cultivo de cana que atendem a Usina de Álcool Cosan, sofreram o mesmo destino, bem como, outras Usinas no país. Mais recentemente, 5 mil camponeses e camponesas do Nordeste, organizados no Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), ocuparam a 36ª Unidade de Pesquisa da Monsanto no Brasil, localizada no distrito de irrigação Nilo Coelho, em Petrolina (PE). A ocupação, segundo os invasores, acontece como forma de denúncia aos impactos sociais e ambientais trazidos pela empresa, sobretudo com a modificação genética das sementes e a produção de agrotóxicos, que causa danos irreversíveis ao meio ambiente e à saúde humana em todo o planeta. Outras empresas multinacionais do agronegócio também são alvo dos movimentos agrários. Este ano, uma agência da Caixa, um porto e até uma refinaria da Petrobrás foram ocupados. Todas as ocorrências citadas, diferentemente dos vandalismos registrados durante as manifestações públicas em São Paulo e Rio de Janeiro, em maior ou menor grau, possuem em comum a simpatia pública a favor dos protagonistas, carregadas de legitimidade por questões sociais, humanitárias e de saúde pública. Tanto isto é verdade, que não houve prisões nestas situações. Este fato nos leva a crer que todas estas ocorrências poderiam ser identificadas, evitadas ou minimizadas, mas não o foram. O país apresenta elevado grau de incerteza em questões fundamentais, como econômicas, segurança pública, justiça e regulatórias, entre outras, que elevam o nível de risco de todo e qualquer negócio. Voltando ao caso Royal, se computarmos os fatos do Instituto estar sob investigação pelo Ministério Público desde o ano passado à possível origem da denúncia, já que era conhecida a existência de várias ONG’s de defesa dos animais na região, era razoável que o risco de embate fosse detectado e acompanhado de perto antes que a situação se transformasse em crise. Ressalta-se que muitas destas ONG’s estavam mantendo seus websites atualizados com a situação da denúncia e registrava passo a passo todos os movimentos e evolução da disposição dos ativistas. Este é só mais um caso de falta de planejamento estratégico, onde os tomadores de decisão menosprezaram a avaliação de risco do ambiente de negócio e os devidos processos de inteligência estratégica. O simples monitoramento das vulnerabilidades apontadas na avaliação de riscos e a consequente análise sistemática da evolução destas ameaças, já propiciaria sobremaneira a capacidade da empresa identificar os possíveis cenários e se preparar para minimizar seus impactos. O volume de informações coletadas e as devidas análises proporcionam um acúmulo de conhecimento impar sobre as atividades hostis, fortalecendo a segurança do executivo na tomada de decisão. Quando o executivo recebe um relatório de inteligência, o mesmo é precedido de uma coleta de dados planejada e direcionada para atender às necessidades do problema alvo, que após ser analisada, atende exatamente aos requisitos solicitados pelo executivo, tornando-o assim, um documento único e confiável em suas premissas, portando, extremante importante. Independentemente de julgarmos a legitimidade moral das invasões citadas, do ponto de vista legal e corporativo, todas as ameaças poderiam ser gerenciadas se precedidas de um produto de inteligência focado, o que minimizaria muito os impactos sobre as marcas envolvidas.

Read Full Post »